Estamos abaixo dos trópicos, submetidos à gravidade, então nosso corpo achata mais. A pressão da gravidade é mais forte. E falta cultura nacional de corpo. A gente se apóia em coisas perigosas, como a idéia de que o brasileiro é sensual e tem gingado. O brasileiro é extremamente bobo no plano da coordenação. Coordenação motora é educação. O corpo do brasileiro é pesado, ele anda se deslocando pesadamente de um lado para o outro. Para melhorar o corpo, é preciso mudar uma questão urbana, de ônibus, metrô, deslocamento por boas calçadas, além da proteção à violência. Aí o corpo cresce. A gente quer que Jesus salve, mas ele deve estar no Iraque. Ele não vai salvar a nossa postura.
Uma amiga gostava de um homem bonito e "sarado". Quando se deitaram juntos pela primeira vez, havia um grande espelho ao lado da cama. No meio das escaramuças, o homem olhava insistentemente para o espelho. Minha amiga pensou que ele devia achar excitante a visão dos dois corpos nos gestos do amor, mas logo ela notou que o homem não parava de flexionar seus tríceps verificando, no espelho, a definição de seus músculos. Minha amiga perdeu o entusiasmo; esperou, educadamente, que a transa acabasse e nunca mais encontrou o homem. "O que foi?", perguntei, "você ficou com ciúmes dos olhares apaixonados que ele reservava para seu próprio corpo?". "Não", respondeu minha amiga, "só fiquei com a sensação de que a gente estava na academia. E aí perdi o embalo".
"Nem sempre uma ejaculação (dormindo ou acordado) tem origem sexual. Eu, por exemplo, fico excitado com a letra A e tive sonhos úmidos por causa dela: me vejo penetrando-a, a luxúria a transforma num V, suas longas extremidades me apertam. Digo para ela ficar de barriga para baixo e já é um ardente W e então a imagem se dissolve e sobra o A numa placa de rua (será que isso é um pecado horrível?). A fobia de Deus pelas secreções é evidente: nos fez de um impessoal monte de barro, fez a mulher de um osso e para engendrar seu único filho optou por um asséptico e frio sopro espiritual. De qualquer modo, opino que levantar às 3h16 da madrugada para lavar um lençol já é castigo suficiente, não precisa ainda por cima jogar-lhe um conflito teológico."
Efraim Medina Reyes, em "Técnicas de Masturbação entre Batman e Robin"
"Composition aux trois femmes" (1927) by Fernand Léger
Para o sexo a expirar, eu me volto, expirante. Raiz de minha vida, em ti me enredo e afundo. Amor, amor, amor - o braseiro radiante que me dá, pelo orgasmo, a explicação do mundo.
Pobre carne senil, vibrando insatisfeita, a minha se rebela ante a morte anunciada. Quero sempre invadir essa vereda estreita onde o gozo maior me propicia a amada.
Amanhã, nunca mais. Hoje mesmo, quem sabe? enregela-se o nervo, esvai-se-me o prazer antes que, deliciosa, a exploração acabe.
Pois que o espasmo coroe o instante do meu termo, e assim possa eu partir, em plenitude o ser, de sêmen aljofrando o irreparável ermo.
Uma inspiração deveras deleitosa, fascinante, indubitável, férvida; uma inspiração na qual não há nem escolha nem correção nem remendos e na qual se acolhe tudo como um benfazejo ditado; uma inspiração que faz com que o passo estaque e tropece, com que sublimes tremores percorram da cabeça aos pés o ente agradecido e lhe arranquem dos olhos uma torrente de lágrimas de felicidade – não, tal inspiração não é possível com Deus, que abandona demasiado trabalho ao intelecto. É possível unicamente com o Diabo, o verdadeiro senhor do entusiasmo.